Versos & perversos

Blog de poesias e afins.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Fome-2-Sebastião Salgado
FORA DO ALCANCE



Não sou o homem,
tampouco meu corpo
é o revelador de fábulas
ou segredos constantes
dos álbuns velhos
e de espelhos iníquos...
Não sou e não o faço
porque não me reconheço,
apenas me acho
quando na lama,
refletido farol
nas pérolas
jogadas aos porcos...



Luciano Fraga

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

POETA Herculano Neto na revista MUITO-confiram



POR QUE VOCÊ FAZ POEMA? (em nova casa)
http://herculanoneto.blogspot.com
VISITEM


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Três Estudos para crucificação-3 F.Bacon- 1962
PERÍODOS DE CRUCIFICAÇÃO...


Eis o culpado dos riscos,
lembro-me quando
desfilávamos sob os arcos,
quando encalhávamos
em bancos de areia.
Falar de apaixonados,
é um filme frio, barroco
e seu sabor fausto
desperta águas vivas
que avançam intempestivas
entre musgos e madeiras.
Quando o amor esmaga,
canto meus resquícios
e minha altivez resiste aos remos,
sinto engulhos com o maná
e o embaraço da morte empírica.
Sou uma caça da má fé,
enquanto o castigo não chega,
meu paraíso é o cio...


Luciano Fraga

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

PEQUENAS CONSIDERAÇÕES DA VIDA



Cirurgia de lipoaspiração?Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos lipos e muito mais piração?
Uma coisa é saúde outra é obsessão.
O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, Deus é a auto-imagem.
Religião, é dieta.
Fé, só na estética.
Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem.
Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção.
Roubar pode, envelhecer, não.
Estria é caso de polícia.
Celulite é falta de educação.
Filho da p... bem-sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?
A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa.
Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa.
Não importa o outro, o coletivo.
Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política.
Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar, correr, viver muito, ter uma aparência legal, mas...
Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural.
Não é, não pode ser.
Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme.
Que o amor sobreviva."Cuide bem do seu amor, seja ele quem for".
Herbert Vianna

domingo, 1 de novembro de 2009

A mãe morta e a criança-1899 E.Munch-óleo s\ tela

MORTE DA MORTE


A morte surge do nada.
Calada ou criada,
detrás das curvas
no fundo dos mares
na cor dos olhares,
nas madrugadas
onde estou,
onde tu estás,
não tardará
fazer um verme sorrir.

Anjo nu,
nada sacia
seu apetite de foice
para injetar a dor
num inocente
ou a cura
no paciente
que ainda assistirá
num dia quente
qualquer de abril,
o tiro sair pela culatra
e não será em primeiro
nem o último,
a quem caberá...

Luciano Fraga

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE?






"O Rio faz suas margens, ou são as margens que fazem o Rio?"

Voce não quebra a cabeça na pedra, mas a pedra quebra sua cabeça, Rafael Ilha. Voce se faz de coitado, quer ser mais idiota que os idiotas. Parece que as fontes gostam, elas fazem como voce, às vezes, ou "quase sempre" na sua língua de camaleão pedra, quando se vêem, e assim também lhe vêem quando se vê no espelho e vê suas transformações na pele, na face, nos olhos, no tamanho. Parece que as fontes gostam, depois destas transmutações de sua imagem, guardam as delas atrás da orelha e voce as guarda na gaveta, no armário, na brecha do forro, esconde no quintal, etc. Assim como as fontes, ninguém pode saber, quer dizer, "só as minas".As fontes adoram saber que voce, depois de perceber todas as coisas, fica triste, mas de uma tristeza "legal", diferente dessas tristezas inerente à realidade, e se isola e chora açucaradas lágrimas ouvindo Starless and Bible Black do Crimson, todo culpado por elas.Voce sabe que elas não tem escolhas, que ninguém, "dentro da mais profunda necessidade", possui porra nenhuma.Que toda dor é dividida, seja sua música, seja sua pedra.Voce não sabe que as fontes só querem a música, voce não aceita e, por sua velha contradição sexual, se se compaixona. Voce se acha bonito, e dá mais e mais pauladas nessa droga da auto compaixão. Voce quer fugir de ser mais um paulatino da civilização, rafael qualquer ilha?Voce até que tentou se fazer de vinho e creme e rebolados quando criança.Mas o vinho azedou, não fechou tão bem seus olhos, excomungou-se, depois a família e agora a sociedade ébria em seu "paraíso artificial"(Baudelaire).O creme não escondeu os reflexos prematuros da ressaca.Não conseguiu dançar conforme a "música".Espera um momento de inspiração do "Datena", porque até o Zagalo teve, dizer que aqui na Terra ninguém enfrenta a ressaca como só voce, "o único", a enfrentou com coragem e heroísmo, sem morrer nessa merda de vida artificial.Sonha sem qualquer contra gosto acordar com a Ana Maria Braga dizendo que voce é a "prova mais cabal" da impossibilidade do herói sem coragem e só de beleza.E ainda quer uma chance de se expressar, rebolar até se preciso for, no roda viva do Estado.Esperanças e sonhos e pequenas autoridades nos assuntos, é sua senda brasileira, Cara.E feito, sob ou sem efeito de drogas lícitas ou ilícitas, qualquer babaca careta covarde, também faz tudo ao contrário.Reza para deuses mediatos, fantasia o imediato e ignora as grandes autoridades nos assuntos.Quando voce pensa que não tem nada deles, eles pensam que não tem tudo de voce.Enquanto voce se quer tão competente e singular eles são tão elegantemente plurais, e também quando voce se limpa, se perfuma e se iguala higienicamente na guerra de espírito eles se acham tão singular. Diferença e indiferença, cara e coroa, corações e mentes, oito ou oitenta, todos os extremos ingredientes ou sobras do meio são sua paz de espirito.Mas, companheiro, se precisar encontrar ajuda, se seu lado babaca careta covarde merecer sequer uma chance, tente achar uma companhia inteira, porque elas existem, são as eternas excessões ou outros extremos, aonde os espiritos não sejam esterilizados ao ponto da inexistência de Vida; sem a qual não há a menor chance para voce e nem para ninguém. Acima de tudo, com ou - dê preferência sempre à sua "saúde" - no drugs, persista, porque em vida o humano prevalece.
"A concepção humanista da "realidade", como algo resistente, contudo maleável, que controla nosso pensamento como uma energia que deve ser levada em "conta" incessantemente (embora não necessariamente meramente copiada) é evidentemente uma dificuldade que se apresenta aos neófitos. A situação faz-me lembrar de uma pela qual passei pessoalmente. Certa vez escrevi um ensaio sobre o nosso direito de acreditar, que, infelizmente, chamei de Desejo de Acreditar. Todos os críticos, niglegenciando o ensaio, caíram sobre o título. Psicologicamente era impossível, moralmente, iníquo. "Desejo de enganar", "desejo de fingir", foram espirituosamente proposto como títulos substitutos."(William James)
Fica esperto, cresça de fato, vai com fé e coragem e alegria, gratuita mesmo!, de encontro com seu destino, Ser. Estamos todos, neste momento atual da civilização, prestes a institucionalizar, como fazem os viciados em qualquer coisa, o não-humano da indiferença e da melhor atenção canina, e se Deus precisa existir, Ele vai precisar estar dormindo mesmo(!) para não ver o que pode acontecer com os extremos, inclusive democráticos.Finalmente, ilustrando minha neutralidade sem indiferença(!) e jamais encima de muros, ainda no assunto sobre novas ondas que nem sempre quebram em praias alegres, para todo rafael ilhas e continentes, tomando o conceito de metáfora poética ao extremo, surfar é sempre um bom motivo, mas jamais uma boa desculpa.Um forte abraço, garoto.

Atenção a todos(!): para quem não entendeu este texto, somente porque não tem conhecimentos eficientes porém muita naturalidade humana(!), desejo-lhes a paciência dos verdadeiros heróis da resistência, e para aqueles(as) que possuem conhecimentos somente suficientes e pouca naturalidade humana (o bem e o mal em dialética), desejo-lhes "rajadas e mais rajadas de água bem gelada(!) para que acordem definitivamente", em nome do verdadeiro conceito de Democracia, que suplanta o pão e circo da indolência.


TEXTO DE DEVIR-Blog Antes dos nomes

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

TRIGÉSIMA SÉTIMA LEVA -DIVERSOS AFINS

Caro leitor,


O tempo, senhor de um tudo, acalenta bem mais do que mistérios. Reserva-nos o valoroso sabor das descobertas. Apostando nisso, a Revista Diversos Afins inspira mais um sopro de novidades:

- percorrendo a estética intervencionista do artista plástico e fotógrafo Kilian Glasner

- em meio à linguagem contundente das linhas cinéfilas de Celso Serpa

- nas experiências inusitadas presentes nas prosas de Nydia Bonetti, Bruna Mitrano e Larissa Mendes

- pelas profundidades dos versos de Aleph Davis, Fao Carreira, Nilson Galvão, Wilton Cardoso e Marcos Pasche

- através das vias sonoras dos discos de Otto e Filipe Catto


Outros caminhos e palavras aportam aqui:

http://diversos-afins.blogspot.com


Saudações culturais,


Fabício Brandão&Leila Andrade- Leveiros

domingo, 18 de outubro de 2009

BOIS-Fotografia-Luciano Fraga-2008

CERTO AR ESTRANHO



Respiro o intangível,
o abrangente e sacro
som do clarinete.
Respiro a especulação,
o colapso,
as anomalias...
Respiro a repugnância
dos dias e das noites nuas;
respiro a multiplicidade,
o desvio,o cintilar
hemorrágico da heroína...
Respiro a vigília,
a golfada débil
do retorno
de quem precisa ir.
Aspiro amenidades,
alívios passageiros;
vou de encontro ao sutil
no coração do eterno,
respiro o último recurso
do amor que disse
adeus.!
Ah! Queria o ar
da natureza pura,
a calmaria da alma madura
do nada de ser Um;
mas minha mente vadia
não silencia
e não faz psiu...



Luciano Fraga

sábado, 10 de outubro de 2009

NA LONA NO ÚLTIMO ROUND

Homem nu com Faca-Jackson Pollock-1938-40


Soa o gongo
e o sol salta tão assustado
do meu pobre bolso
quanto um mártir...
O amor sangra na salmoura
tentando livrar-se
dos remorsos...
Minha loucura é devota,
não suporta o peso dos delitos,
foge da espera.
É hora da execução!
Entrevejo sombras
de defuntos rancorosos
lá onde o céu vacila
entre as tranças
do amor que expirou.
Cortei todos os pensamentos
do meu cardápio,
mas aquele amor tenta
manter-se conservado
com a mesma dieta,
com o mesmo sal
que me fez doente...



Luciano Fraga

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

ANIVERSÁRIO DE ANITA

Hoje é o aniversário de nossa amiga Anita, dedico uma bela poesia do amigo Braga, ao tempo que desejo-lhes luz , paz, e muita poesia nas veias, felicidades, grande abraço.
POEMA DA DÚVIDA
eu busco a palavra certa
para saturar a minha dor,
e busco
na dor certa
o mundo de um poema.

o meu poema
em verso torto
chora toda certeza

e
soletra a mentira
em garrafais gestos de carinhos.


ronaldo braga

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

SÉRIE- SANGRO

Fotografia-Márcio Carneiro-2009



A MÃO QUE AMASSA O TRIGO


Estou pronto

(sei que não),

mas não afirmo.

Estendo os braços,

exponho as veias

escuto o canto

esmorecido

vindo do lago das contradições.

Vem com um zunido branco

como um vício consagrado,

um hiato dentro do líquido,

um silêncio perturbado,

gritos das hienas e carrapatos

que abrem os sorrisos

ao largo do ventre maternal,

sinto o empurrão,

ouço um sussurro

quase um estampido,

vai, vai, vai, vai...

Não me restou opção,

senão renascer...


Luciano Fraga

terça-feira, 29 de setembro de 2009

50 ANOS DO BAR DO TURÍBIO- "ninguém conhece esta face"

Para nossa satisfação, 50 anos de Bar do Turíbio, figura polêmica e emblemática, foi vereador em nossa cidade Cruz das Almas, na ´póca em que não havia remuneração para o cargo, grande figura humana,considero como um pai ou mesmo um avô, de vez em quando tomo uns bons esporros dele, principalmente quando resolvo fazer cócegas, nós te amamos. Esta é apenas uma singela forma de homenageá-lo.




Turíbio com os amigos que frequntam seu bar.








Eu e Turíbio, foi uma honra recebê-lo no dia de lançamento do meu livro-Vaga Lumes.


O VELHO TURA.




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

NO BERÇO ESPLÊNDIDO

Ambiguidade-Ismael Nery


“É meu batismo e minha fraqueza de que sou escravo...”.
A.Rimbaud


Vou costurar o tédio
com as agulhas do palácio.
O meu enfado
é um estertor
irremediável...
Minha vida desfila
suas saídas
num beco fashion
e na geometria da favela
a palavra chave
é uma chuva de balas
de AR quinze
minutos antes
da folia de carnaval.
Preciso de um aval
para escapar
(sem as fantasias)
pelas serpentinas do ar
condicionado pelo estado
de sono pesado
de Ali Babá
que dorme,
dorme, dorme,
com os cofres abertos,
repletos de tesouros
subtraídos,
fecha-te sesámo!


Luciano Fraga


sábado, 19 de setembro de 2009

LANÇAMENTO- UM CÃO SEM DONO - Mathias De Jesus

Eu com meu amigo Mathias(professor e escritor) no dia do lançamento do seu livro, foi um momento de muita emoção e satisfação para todos nós que o consideramos,foi uma noite rara e especial.


Mathias ao autografar meu exemplar, intitulou-me carinhosamente:"domador de Vaga Lumes".
Parabéns amigo, desejo-lhes todo sucesso, foi um dia de imensa alegria para mim que sou admirador dessa grande figura humana. Tive a oportunidade de desfrutar da sua valiosa amizade desde os idos de 1978, quano o conheci na RU( Residência Universitária) em Salvador..

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Poster - Birds, The,29 (Alfred Hitchcock)


OS LOBOS E A LIBÍDO



Ah! Se um arco íris indomável

engolisse-me

com sua nódoa,

com seus pássaros

pra me cuspir matizes...

O meu bazar de intenções

é um nevoeiro nauseabundo.

Sob as teclas do meu piano

o hálito de uma ópera

exala orvalhos de retomadas

como flor de porcelana quebrada

nos jardins dos cárceres.

É certa a queda,

nesta barbárie vitrificada

tudo pode ser desejo,

ventura,

mandamento de rua

ou crises de lua...

Vindo de fora,

algo perpassa meu repouso

de homem destemido

e fere meus dotes

góticos.

Tento escapar

de um eminente azar

que minha alma desmente

com todas as cores...

Será que você sabe

o que é ter os olhos

devorados pelos pássaros de Alfred?


Luciano Fraga


Dedico este poema com agradecimento especial aos amigos Zana Sampaio e Daniel Mendes.

TEXTO POSTADO NA EDITORIA "CUBO MÁGICO" DO SITE DA REVISTA LUPA DA FACOM/UFBA.


sábado, 12 de setembro de 2009

AVISO AOS AMIGOS (BLOGS)

ESTAREI AUSENTE POR UM CURTO PERÍODO POR MOTIVO DE TRATAMENTO DE SAÚDE- CIRURGIA.

ABRAÇO A TODOS!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Homem Nu-J. Pollock(1934-41)-óleo s/painel

MENTIRAS DE INVERNO

“Que é o meu nada, comparado ao estupor que vos aguarda...”.
A. Rimbaud




Um novo céu
pregnante
acerca-se de mim,
uso-o com coragem
para desanuviar
verdades recorrentes
do amor que mendiga
frutos enganosos
para alimentar
um exército viçoso
de acontecimentos
dissimulados...
Minhas palavras
são meias palavras
que não se comunicam,
tampouco se fundem
para gerar um vir-a-ser,
uma metáfora nasal,
ou um mero pensamento
ossificado no inverno
que ao menos consiga
sustentar
o dito pelo não dito...




Luciano Fraga

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Capa da primeira edição de Uma estação no inferno-Rimbaud

Na segunda edição do livro Arthur Rimbaud-Prosa poética (Uma estadia no inferno, Iluminações, Um coração sob a Sotaima,Os desertos do amor,Prosas evangélicas)traduzido por Ivo Barroso, trás dentre outros fatos interessantes sobre a vida do genial poeta o que um dos maiores conhecedores da obra do autor - Pierre Petitfils, assinala como cinco atos e um epílogo, em torno da gênese, elaboração, catarse, publicação e destruição, seguida de redescoberta desta obra.
Separei aqui uma parte do quarto ato e outra do epílogo.

“Quarto ato: Rimbaud lê o manuscrito para a mãe, que o interroga sobre o significado do texto. A resposta teria sido (segundo Isabelle): “queria dizer o que está dito, literalmente, em todos os sentidos”. Madame Rimbaud,surpreendentemente, aquiesce em adiantar-lhe a soma necessária à edição da obra, confiada aos livreiros Poot& Cie, de Bruxelas.
Rimbaud recebe alguns exemplares de autor, que distribui entre amigos, o de Verlaine recebe a sóbria dedicatória, “A P.Verlaine,A. Rimbaud”.A edição será de 500 exemplares, a serem vendidos a um franco.
Rimbaud vai a Paris para saldar a dívida com o impressor, lá evitado por homens de letras, em conseqüência do “afffaire” com Verlaine, deixa com seu amigo Forain alguns exemplares da obra e regressa a casa, onde em último ato - num acesso de irritação e amargura atira na lareira os exemplares que lhe restam, bem como os rascunhos, manuscritos, notas, reminiscências (sempre de conformidade com depoimento familiar).

Epílogo: a edição original que se julgava destruída nesse auto - de –fé voluntário, é descoberta por acaso, em 1901; pelo advogado belga Leon Losseau, que procurava, nas antigas oficinas gráficasde Jacques Poot, uma tiragem especial da revista La Belgique Judiciaire.Um pacote que acumulara poeira de 28 anos, parcialmente mofado por ter permanecido em local sujeito a goteiras, continha 500 exemplares da obra, cuja fatura Rimbaud não havia pago, 75 exemplares foram queimados, os restantes, adquiridos por Losseau que, somente em 1914, revelou sua descoberta, deitando por terra a versão do “auto fé”.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

QUANDO TUDO COINCIDE COM ADEUS

Francis Bacon, Study for the Head of a Screaming Pope, 1952



É o anti ser
que clama.
Sua graça espontânea
é um pesar experimental
que desvanece minguante...
Coleciono defeitos,
desdenho ideais
sacados de cartolas.
O meu ser em chamas
tem sua meia noite
e a sua fome
é uma cinza lograda
na forma de homem abstrato
com nome impróprio
que ingere promessas
de cicuta como talismã...
A morte é o meu fermento
e a sua sombra é áscua...


Luciano Fraga

domingo, 23 de agosto de 2009

LORD of EREWHOM

The Burning Man, Evelyn Williams, 1985


"cada poeta tem suas invisibilidades a cobrar de si um caminho, o seu interior grita de dentro uma estrada, mas acima de tudo qualquer poesia tem que ter beleza e antes de ensinar ou impor valores precisa encantar, precisa ser um canto..." Ronaldo Braga.



O MENINO QUE CONSTRUÍA TÚMULOS




Na minha adolescência injectava-me de perfumes, andei desesperadamente pelas ruas à procura da realidade, acordava aos gritos.

Anoitecia pelas páginas de uma loucura de pergaminho, o amarelo era a minha cor maldita, identificava os poentes e os cadáveres. O meu ofício era desde logo semelhante: capturar, e procurava um país difícil.

Num delírio de sofreguidão corria para os campos e devorava rosas, bebia água em grandes haustos, bebia vinho em sucessivas garrafas, mordia o chão até que a terra na boca me fizesse sentir repleto de sabores e de fontes – mesmo assim não havia saciedade.

Corria para a floresta como um lobo, despedaçava-me contra as árvores, inspirava violentamente, queria comer o ar – não havia saciedade.

Dava a mão às mulheres e trazia-as por caminhos difíceis, arrastava-as até ao cimo da montanha, à beira do abismo, olhava-as com crueldade e perguntava: Queres voar? – não havia saciedade.

Transformou-se-me a alma num vento de cânticos, todas as palavras proferidas no mundo passaram a ser minhas e as sombras sorriam à minha passagem e tocavam-me.

Decidi morrer no pino do Verão: o piar dos pássaros, a calma solar da meia-tarde, um punhal de fogo cravado na medula. Sempre adiei tudo, até hoje.

Na juventude procuramos corações como se fossem oásis, acreditamos no Graal, mas quando se nasce ferido já nada no mundo pode calar a nossa sede. Não encontramos a saciedade no chão, a vida transforma-se num grito, e depois envelhecemos, devagar, quase iguais a toda a gente.

Às criaturas raras o destino reserva uma morte em vida e um luto antecipado, de si mesmas. Uma só e inútil glória lhes é ofertada… a de poder olhar em redor e saber quão belo é o seu túmulo.



Lord of Erewhon

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