sábado, dezembro 08, 2012

TRECHOS DE: A CARTA

Sem destinatário, data e local, em qualquer tempo.


                                      Fotografia-Márcio Carneiro.


Cada detalhe é uma miragem, cada idéia é um temor...Rebusco cada passagem e reflexo, cada minúcia e palavra. Cada minuto de impotência vêm recheado de palavras.Imagino tudo que brota e tudo se torna receio. Vou ao espelho, consulto cada fio de cabelo, cada ausência de mim, altero falas, tons, cada fragmento de ímpeto destroçado.Vou montando o quebra-cabeças como um álbum de fotografias, uma árvore
genealógica, sem conhecer o grau de parentesco. E eu um sujeito muito perigoso, de uma cegueira quase insaciável, arregalo os olhos, observo os desejos, deixo-os, que sigam fluindo, como um certo rio que jamais encontrará o seu mar.Estes desejos pedem sal, mas quero que apodreçam entre silêncios, que jamais tornem-se uma carta maldita que perambula por gerações e gerações, indecifrada. Alguns ritos são premeditados, mas singular é a minha saída pelos fundos, angelicalmente, transformando cada fracasso em sílabas de anseio para confecionar palavras para aquela carta que alucina. Meus dons tateiam, fico confinado em exageros, como um natimorto, perambulo em íngremes incertezas, no limite da ação... O que realmente mudou de lugar? O que nos separa da mentira?
 
 
 
                                                                                    Luciano Fraga


4 comentários:

Por que você faz poema? disse...

Quase nada nos separa da mentira.

Luciano Fraga disse...

Caro amigo Herculano, recebi um presente do amigo Marluí(sempre generoso), seu novo livro, já estou relendo, gostei muito, em todos os sentidos, confecção, acabamento estético, conteúdo(lógico), vou mandar pra você autografar.Escrevi este texto, livremente inspirado em seu livro, ao recebê-lo por correio. abraço.

Por que você faz poema? disse...

Fico feliz em saber,
será um prazer autografar.

Zana Sampaio disse...

Caramba... essa me pegou de jeito... também fico imaginando aqui, poeta, o que brota, o que apodrece, o que se torna "infértil" e o que se torna receio... acho que tudo sempre muda de lugar!