terça-feira, junho 30, 2009

SANGRIAS

Natureza Morta(Lágrimas de Sangue) - Fotografia- Márcio Miranda-2009



Penso diferente
do que faço
e não é um traço tão simples...
O meu dia,
é um meio dia,
a minha noite,
é uma noite inteira
e não é passageira
ou vazia,
como fora outrora,
mas uma aurora
progressiva de grosserias...
Qual foi a sua primeira impressão?
Sentiu vontade de sorrir
ou de versar?
Nada sentiu?
Tudo é um risco clássico,
a noite, o dia, um olhar,
sentir as pequenas coisas...
Admiro quem consegue
exercer o poder
sobre quase tudo,
se isto é bom,
não sei,
o que há de errado com você?
Por que queimar vivo
sob o sol,
acuado por cartas
que ignoras?
Qual o seu mal entendido?
Achei que sua esperteza
o deixasse feliz,
você que me ensinou
a fingir,
a tirar fotografias
fazendo xis,
sempre como uma criança
na beira do mar,
com desejos de exibição,
como um banco de areia
com fome de mostrar-se por dentro
e coisas do gênero,
como ser a prova d’água
quando a morte fantasia.
Não compare as nossas mãos,
nem nossa solidão...
Afinal você acredita em que?
Nisso ou naquilo?
Ou numa chuvarada que passa,
passa, passa, passa,
como uma ficção.
Diante do espelho,
sangro existência de bronze
feito seiva de estátua...



Luciano Fraga

28 comentários:

pianistaboxeador21 disse...

Uma metáfora cortante em cima da outra. Meios-dias noites inteiras, seivas de estátuas e a morte fantasiando.
Muito bom, velho. É sempre muito bom ler tuas coisas.
Abração

Anita Mendes disse...

uma poesia de tirar o ar, lu!
lindo , lindo!
"Admiro quem consegue
exercer o poder
sobre quase tudo,
se isto é bom,
não sei,
o que há de errado com você?"

confesso que tenho medo de gente "feliz" que tem esse poder de ver tudo com um positivismo absurdo...é como se a verdade fosse pedra embrulhada num papel de presente dos mais bonitos...

a reflexão das pequenas coisas nos fazem questionar o papel da nossa existência em tudo isso:
é vero meu caro ,lu.
é vero!
beijos enormes pra ti.
Anita Mendes.

Adriana Godoy disse...

Olha, Luciano...há poemas que marcam mais que outros. Esse é um deles. Uma conversa com um interlocutor que possibilita uma leitura, uma não, várias possibilidades de leitura.
"O meu dia,
é um meio dia,
a minha noite,
é uma noite inteira
e não é passageira
ou vazia,
como fora outrora,
mas uma aurora
progressiva de grosserias..."

Delirei com sua grandeza poética na simplicidade. Isso é poesia. Beijo.

Mirse disse...

Oi Luciano! Imagem e texto fortes.

Daqueles que quando se lê, fica grvado na alma, e não se quer ler mais nada.

"Penso diferente do que faço"
"sentir as pequenas coisas"
e
vai assim num diálogo-poema genial!

Alucinante!

Parabéns, poeta!

Beijos

Mirse

Marcia Barbieri disse...

"O meu dia,
é um meio dia,
a minha noite,
é uma noite inteira
e não é passageira"

lindo!!!!para mim, apenas o nome do poema bastava, já me disse mil coisas e mil imagens. Admiro sua genialidade!!!!

beijos ternos

guru martins disse...

...mandou
muito bem
cumpadi.
Poderia continuar
in de fi ni da men te
nessa divagação
con sis tên te
os 3 pontinhos
do final sugere
continuidade
con ti nu e...

aquele abraço

Luciano Fraga disse...

Daniel, sempre uma satisfação contar com seu retorno, grande abraço.

Luciano Fraga disse...

Anita, gostei dessa pedra enrolada em papel para presentes, seria quase um presente de grego...Mas concordo,existir é buscar com leveza na profundidade, beijo.

Luciano Fraga disse...

Adriana, poeta querida, sinto-me lisongeado com seus comentários: de quem busca, faz e sabe o que diz, beijo.

Luciano Fraga disse...

Mirse, com sincera alegria, muito obrigado, abração amiga.

Luciano Fraga disse...

Márcia, sua presença é sempre marcante em nosso espaço, satisfação imensa, grande abraço.

Luciano Fraga disse...

Caro amigo Guru, ad infinitum, mas fica tranquilo que não está aberto para a Sangria-2 não...Abraço mestre.

tania não desista disse...

luciano, como um turbilhão!
jorram indagações...lembranças
...passado...certezas..inseguranças...questionamentos...uma riqueza!
parabéns,por saber dizê-las!
abraços
taniamariza

Luciano Fraga disse...

Amiga Tania, no fundo somos um grande ponto de interrogação não é mesmo? Grande abraço.

On The Rocks disse...

d. luchiano,

interrogações que não nos deixam calar.

parados, nunca.

buenas!

ronaldo braga disse...

um poema encurralador.
e com a marca luciano fraga.

marcio mc disse...

Sangro existência de bronze feito seiva de estátua...
Seivas rolam feito lágrimas de sangue.
Grande poema...

Valeu por mais uma participação no versoseperversos.

Luciano Fraga disse...

Buenas, e como incomodam, grande abraço.

Luciano Fraga disse...

Braga, encurralado, mas com várias saídas e respostas ou talvez becos sem saídas mesmo, abraço.

Luciano Fraga disse...

Márcio, isso é real.O espaço estará sempre aberto amigo,disponha, abraço.

Devir disse...

Muito interessante o poema, Luciano

Precisa ler mais, se acaso já passou do tempo de pescar para relaxar a vida diária; concordo com voce, se disser que não existem mais águas doces ou salgadas, onde antes o pescador era mais bem recebido que seu contracheque.
A culpa não é do espelho que rouba metade de nosso dia e parece almentar ao exagero nossa noite. Esta é a sua garantia, o que faz bem à imagem, um equilíbrio dialético entre homem e animal; as lutas durante a luz natural são sempre assim, limpas, seguras, finas, doces, brandas, legais, certinhas, etc, que se parecem tanto com aquelas partidas cafécomleite, para apaziguar a fera, que a cultura em vão não consegue, durante as noites. E esta meia a noite à mais, reflita, é o homem roubando a besta.
Eu sei que mais se parece espelho distorcido, Narciso de costas para seu reflexo, porém, eis aonde enfim me encontro, de frente para o mundo, rss, realmente real. E se ao meu lado encontro muito mais mortos do que vivos, muito mais estrangeiros do que brasileiros, não há problema, todos nós assim, tão caóticos(rss), perdemos este tesão idiota pela própria imagem.
Ou me dirá que o mito de Narciso não é o que digo? O idiota que se contempla indiferente ao mundo e, quando alguem por diversão ou maldade turva a água, o bonitão ou bonitinho fica ofendido e luta e magôa, ou se magôa e se traumatiza; estes vão encher hospitais ou clinicas de psicoafinsdeourorgias, enquanto aqueles podem ou não encher presídios. Pode acreditar, meu caro amigo, Luciano, que a percentagem de magoados se tratando de doenças fantasmas, é astronomicamente maior do que os amantes do futebol e mulher.
Finalizando, reflita sobre quem vai perguntar para voce primeiro: do que esse cara tá falando?

E, por favor, não se esqueça dos temperamentos regionais; cariocas são devotos da multidão e tentam afastá-la, paulistas são devotos da solidão e tentam afastá-la; uma verosimelhança muito interessante.

E torço para que blogueiros(as) de todos os lugares não tenham receios de se expressar com muito mais ainda que seus sotaques.

abraço

BAR DO BARDO disse...

Gostei!

Luciano Fraga disse...

Caro amigo Devir, concordo, como diriam os gramáticos em gênero, número e grau(embora afirmem que unanimidade é burrice), o grande problema de boa parte dessas pessoas a que se refere é imaginarem que a doença ou mesmo os defeitos são do espelho, quando suas imagens surgem distorcidas,aqui tudo é livre, abraço.

Luciano Fraga disse...

Bardo amigo, sua presença é especial, obrigado, abraço.

Cosmunicando disse...

tantas leituras possíveis... uma construção poética intimista mas vigorosa... ficou o máximo esse poema =)

abraço

Ruela disse...

Muito bom!


Abraço.

Luciano Fraga disse...

Cosmunicando, obrigado mesmo, sua opinião vale ouro, abraço.

Luciano Fraga disse...

Ruela, grande,sucesso em sua jornada, abraço.