quinta-feira, abril 10, 2008

ZÉ DE ROCHA- O Pé nº 2 - 1998



GEENA

“...fui pelo abandono, abandonado...”
A. Antunes

Ânsias efervescentes,
dissolvem-se nos cálices
injetados com vinho tinto.
Num dia anêmico,
viajo a bordo de um sangue doce
que trás na essência
a noção dos limites,
entre a vela e o castiçal
estagnei o mais desprezível de mim.
Resisto à derrocada,
inalando a baforada quente
e mal humorada das alturas,
sagrados, são os que viajam,
os nômades,
os aventureiros do nada...
Não sou escravo de mim,
artesão da tristeza
carrego o Z de Zaratrusta,
vivo tentando extirpar a sedenta
mania de provação,
de seguir os desígnios,
de que desejar é imoral.
Sou matéria em decomposição...
Nada sei do meu signo,
não faço planos,
sou um camaleão,
mudo sempre as idéias,
não sou um sujeito dócil,
nem inclemente,
sou um fulgás capítulo à parte...
Nada tenho a declarar,
não sou a lei, nem a moral,
tenho instinto desordenado,
labutei em campos de concentração,
daí , não ver contra tempos nas ruínas,
sou um serviçal do que segue
adiante,
sou um intrépido bichano,
não engulo sapos,
nem deixo-os atravessados,
não receio o mito de uma velhice ingrata,
que soprem os ventos dos abrigos
e dos desabrigados,
os odores mijados dos dementes,
dos inermes e largados à toa...
Eu tenho a rédea
e a língua soltas,
sou um cavalo desembestado,
sou um verso descendo ladeira abaixo,
não tenho alicerces,
sou o paraíso dos fantasmas...
Entre um corpo e uma alma
devassada,
sou um,
na brisa dormente da calçada...
E isso é nada!



Luciano Fraga
..

2 comentários:

Ruela disse...

Gosto muito dessa pintura do ZÉ DE ROCHA e as suas palavras...sem palavras,

"Entre um corpo e uma alma
devassada,
sou um,
na brisa dormente da calçada...
E isso é nada!"


Gostei.


Abraço.

marcio m disse...

Eu tenho a rédea e a lingua soltas e sem freio.tudo que precisamos para escrever poemas maravilhosos como esse.