sexta-feira, fevereiro 05, 2010

O HAITI E A MALDIÇÃO BRANCA

No primeiro dia deste ano, a liberdade completou dois séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou disso, ou quase ninguém. Por Eduardo Galeano* - o melhor de todos (isso sou eu quem acha)O Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravidão. Contudo, as enciclopédias mais conhecidas e quase todos os livros de escola atribuem à Inglaterra essa histórica honra. É verdade que certo dia o império que fora campeão mundial do tráfico negreiro mudou de idéia; mas a abolição britânica ocorreu em 1807, três anos depois da revolução haitiana, e resultou tão pouco convincente que em 1832 a Inglaterra teve de voltar a proibir a escravidão. Nada tem de novo o menosprezo pelo Haiti. Há dois séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e dono de escravos, advertia que o Haiti dava o mau exemplo, e dizia que se deveria "confinar a peste nessa ilha". Seu país o ouviu. Os Estados Unidos demoraram 60 anos para reconhecer diplomaticamente a mais livre das nações. Por outro lado, no Brasil chamava-se de haitianismo a desordem e a violência. Os donos dos braços negros se salvaram do haitianismo até 1888. Nesse ano o Brasil aboliu a escravidão. Foi o último país do mundo a fazê-lo. O Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas TVs e nas páginas dos jornais, no início deste ano, os meios de comunicação transmitiram confusão e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mal e para fazer mal o bem. Desde a revolução até hoje, o Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era uma colônia próspera e feliz e agora é a nação mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos. Da maldição branca não se falou. A Revolução Francesa havia eliminado a escravidão, mas Napoleão a ressuscitara: - Qual foi o regime mais próspero para as colônias? - O anterior. - Pois, que seja restabelecido. E, para substituir a escravidão no Haiti, enviou mais de 50 navios cheios de soldados. Os negros rebelados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertação dos escravos. Em 1804, herdaram uma terra arrasada pelas devastadoras plantações de cana-de-açúcar e um país queimado pela guerra feroz. E herdaram "a dívida francesa". A França cobrou caro a humilhação imposta a Napoleão Bonaparte. Recém-nascido, o Haiti teve de se comprometer a pagar uma indenização gigantesca, pelo prejuízo causado ao se libertar. Essa expiação do pecado da liberdade lhe custou 150 milhões de francos-ouro. O novo país nasceu estrangulado por essa corda presa no pescoço: uma fortuna que atualmente equivaleria a US$ 21,7 bilhões ou a 44 orçamentos totais do Haiti atualmente. Muito mais de um século demorou para pagar a dívida, que os juros multiplicavam. Em 1938, por fim, houve e redenção final. Nessa época, o Haiti já pertencia aos brancos dos Estados Unidos. Nem Bolívar Em troca dessa dinheirama, a França reconheceu oficialmente a nova nação. Nenhum outro país a reconheceu. O Haiti nasceu condenado à solidão. Tampouco Simon Bolívar a reconheceu, embora lhe devesse tudo. Barcos, armas e soldados lhe foram dados pelo Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu apoio e ajuda. O Haiti lhe deu tudo, com a única condição de que libertasse os escravos, uma idéia que até então não lhe havia ocorrido. Depois, o herói venceu sua guerra de independência e expressou sua gratidão enviando a Port-au-Prince uma espada de presente. Sobre reconhecimento, nem uma palavra. Na realidade, as colônias espanholas que passaram a ser países independentes continuavam tendo escravos, embora algumas também tivessem leis que os proibia. Bolívar decretou a sua em 1821, mas, na realidade, não se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, a Colômbia aboliu a escravidão, e a Venezuela em 1854. Em 1915, os fuzileiros navais desembarcaram no Haiti. Ficaram 19 anos. A primeira coisa que fizeram foi ocupar a alfândega e o escritório de arrecadação de impostos. O exército de ocupação reteve o salário do presidente haitiano até que este assinasse a liquidação do Banco da Nação, que se converteu em sucursal do City Bank de Nova York. O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restaurantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro. Os ocupantes não se atreveram a restabelecer a escravidão, mas impuseram o trabalho forçado para as obras públicas. E mataram muito. Não foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro Charlemagne Péralte, pregado em cruz contra uma porta, foi exibido, para escárnio, em praça pública. A missão civilizadora terminou em 1934. Os ocupantes se retiraram deixando no país uma Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia. O mesmo fizeram na Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e Trujillo. E, assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traição, foram somando-se as desventuras e os anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, o levou, o submeteu a tratamento e, uma vez reciclado, o devolveu, nos braços dos fuzileiros navais, à Presidência. E novamente ajudou a derrubá-lo, neste ano de 2004, e outra vez houve matança. E de novo os fuzileiros, que sempre regressam, como a gripe. Entretanto, os especialistas internacionais são muito mais devastadores do que as tropas invasoras. País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, o Haiti havia obedecido suas instruções sem pestanejar. Eles o pagaram negando-lhe o pão e o sal. Náufragos anônimos Teve seus créditos congelados, apesar de ter desmantelado o Estado e liquidado todas as tarifas alfandegárias e subsídios que protegiam a produção nacional. Os camponeses plantadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou emigrantes em balsas. Muitos foram e continuam indo parar nas profundezas do Mar do Caribe, mas esses náufragos não são cubanos e raras vezes aparecem nos jornais. Agora, o Haiti importa todo seu arroz dos Estados Unidos, onde os especialistas internacionais, que é um pessoal bastante distraído, se esquecem de proibir as tarifas alfandegárias e os subsídios que protegem a produção nacional. Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa o Haiti, há um cartaz que adverte: o mau passo. Do outro lado está o inferno negro. Sangue e fome, miséria, pestes… Nesse inferno tão temido, todos são escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferro velho e, com antiga maestria, recortando e martelando, suas mãos criam maravilhas que são oferecidas nos mercados populares. O Haiti é um país jogado no lixo, por eterno castigo à sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata. Espera as mãos de sua gente.

* Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

11 comentários:

Ana disse...

OLá Luciano,

Engraçado,conheci um admirador do DOMICANO,ele mim pediu para add ele,comverçamos pouco,por que ele
não entendia minha linguagem,acabei
excluindo-o,não entendia a liguage
dele mesmo..nem sei como ele mim descobriu aq!!
I ele é filho do Haiti,pela metade do nosso dialogo...entedir algunhas
algunhas palavras,..ele fala muito do sofrimento,fome,sede,frio...desespero,violência..ajuda!!!
Sinto por não ajudar...o tanto que todos prescisa.
Foi o que eu respondir se ele mim entendeu.!
Hoje mim arrependo de te-lo deletado do meu contato.
Mais..quem sabe!!!
Si surgiu do nada...pode volta
do nada também!!

Você...
Eduardo Galeano!!!

D+, vc é tudo..uma lição da VIDA.
Espelho da realidade.
Sentir na pele...


Abçsss á vc.

É isso aí LUCIANO,..ADOREI!!!

Ana Lag
.

Ana disse...

Na verdade...de onde nada se espera
É de onde tudo surge...ou nada sai
mesmo!!!
É a "REALIDADE DA VIDA"DO MUNDO do
PLANETA TERRA...SERÁ??

Sempre...

Ana Lgo.

Adriana Godoy disse...

Luciano, um texto de arrebentar. Lúcido e digno como o Haiti. Torçamos por esse povo, por essa gente. Vou encaminhá-lo pra outras pessoas. Um beijo e bom sábado, se for possível.

Devir disse...

Em nome de Deus, a dignidade!!!

Grande, Luciano!
Galeano, salve!

"As revoluções, concluíram alguns especialistas, levam ao abismo. E alguns disseram, e outros sugeriram, que a tendência haitiana ao fratricídio provém da selvagem herança da África. O mandato dos ancestrais. A maldição negra, que empurra para o crime e o caos. Da maldição branca não se falou."

Seria a Dilma, uma bela e protetora espada nos presenteada pelo PT?
Seria melhor voltar aos especialistas?

Haiti e Brasil, quanta coincidência!!!

BAR DO BARDO disse...

De fato.

Luciano Fraga disse...

Ana, pois é, você desperdiçou uma chance, principalmente que era seu admirador, mas muitas vezes um raio pode cair duas vezes no mesmo local, quem sabe...Abraço.

Luciano Fraga disse...

Adriana querida, verdadeiro, de quem sabe e conhece as verdades de nossa América, beijo.
PS. importante passar o texto adiante.

Luciano Fraga disse...

Caro amigo Devir, seria melhor que fôsse uma porta estandarte, cuja bandeira seja uma nobre causa,no mais o Galeano deu uma aula, abraço.

Luciano Fraga disse...

Bardo amigo, e contra eles não temos argumentos, abraço.

Braga e Poesia disse...

a ideologia cristã vem matando e roubando por milenios e o haiti é fruto dessa relação facista que os cristão vem impondo ao nosso planeta. eles chegam com deus e balas, reza e facadas e assim vai matando roubando e ainda tem coragem de falar a palavra amor. o unico amor que os cristãos conhece é o de satanás, que na verdade é um invenção cristã.

Luciano Fraga disse...

Braga, aliás o satanás foi magistralmente inventado para que o sofrimento encontrasse uma justificativa plausível,uma desculpa para a falsa salvação prometida, abraço.