domingo, agosto 03, 2008

As mulheres do mar

Acrílico s/tela, Ruela 2005



o que escrevo é um mar interrompido,
sem o seu pulso árido, feroz.
o mar não tem nome mas respira pássaros.
as mulheres olham, impávidas,
esperam por uma nova germinação.
tacteiam a água até ser sal, estendem os ventres
e as roupas encharcadas de lixívia.
e levantam, pela bainha, o lençol do mar
para chorarem a morte dos seus filhos.
há um fogo nos seus seios,
nas mães de espuma e argila, sei que há
uma luz branca que escapa dos seus corpos,
e lhes abre as memórias, as feridas, as dores.
mordo o silêncio na última nudez.
e as mulheres do mar ferem as suas próprias veias,
com saliva, escorrem o sangue frio e o lodo
para a terra macia.
o amor aquece-lhes o coração, perscruta-lhes
a memória nas lágrimas que escapam
da vida. abraçam a violência das suas recordações.
e cheiram a pele enrugada pelo calor da cal.
os homens atiram-se ao mar,
pelos seus caminhos nus.
rasgam-no, para saciar a fome das suas almas.
e há sede na areia, nos velhos barcos que naufragam,
nos pescadores que fumam cigarros, que fumam a vida
para lá do horizonte, quando o tempo
é um imóvel gesto, crasso, que violenta a vida,
que rompe as palavras
e incendeia os sexos até à água, até à última perda.

Luís de Aguiar

2 comentários:

marcio m disse...

A alma do homem tem fome e sede de coisas úteis.Maravilha!Muito bom.

Braga e Poesia disse...

o ruela é bom, sempre me impressiona. e o texto é instigante. bom.